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Pai e filha (2000)
Mais para pais do que para filhos,
esta é uma curta sobre os afectos e o tempo.
Será possível despedirmo-nos de quem amamos?
Adagio (2000)
Um objecto de extrema beleza sobre a diferença.
Vejam-no primeiros os pais, a sós, e depois,
se acharem por bem, mostrem-no aos filhos.
Vizinhos (2001)
Era uma vez um casal que conhecia a lei da gravidade...
até que um dia conheceram o vizinho, violinista chagalliano.
Egghunt (2005)
Uma versão bem-humorada da história dos paus de arroz.
Porque uma lição de moral, de vez em quando, não faz mal nenhum.
A joaninha (2006)
Era uma vez uma inocente joaninha...
(O filme pertence à série televisiva denominada Miniscule.
Vale a pena explorar o mundo de Miniscule aqui. Aviso que a paisagem é muito mais frequentada do que parece...)
Dankeshon Martin, pela sugestão.
Six men getting sick (1967)
Nas curtas de Wells e de Burton tivemos a obsessão,
temos agora, com Lynch, o primeiro exemplo de violência
e de uma violência compulsiva, mal-estar
que se exterioriza vindo das entranhas, vómito.
Obsessão e violência são dois motivos recorrentes
nos primeiros ensaios dos mestres do cinema,
e este facto só pode ser significativo.
Vimos a obesessão pelos objectos em The Hearts of Age,
(pianos, bolas de árvore de natal, cruzes),
realçada pela insistência de certas imagens
e pelo balouçar infindável da velha na sua cadeira.
(Sintomaticamente, o motivo da obsessão pelos objectos
reaparecerá sob a forma de «Rosebud», em O mundo a seus pés.)
Vimos em Vincent a obsessão por uma figura dos filmes fantásticos
e de terror, Vincent Price, e por toda a imagética tétrica de Poe.
Não admira: a obsessão é uma espécie de posse pelo outro,
ou uma espécie de entrega à vontade do outro.
É inevitável que o jovem criador viva esta dualidade:
o fascínio, por um lado, a angústia da influência, por outro.
Não é uma situação confortável, pois, as ideias
que o movem e surgem como suas são afinal réplicas
de algo incosnciente, ou escondido e admirado em segredo.
E é por isso que a violência é a outra face da obsessão.
A violência é um modo do corpo ser contra os seus limites,
uma forma da criatividade se afirmar categoricamente,
de se arrimar com tudo o que não tem, não obstante os golpes
que possam daí decorrer. (Verifique-se como tal compromisso
é levado ao extremo em The big shave de Martin Scorsese.)
No filminho de Lynch existe também esta violência,
mas mediatizada pela animação de telas
(ele que começou como pintor e que não desdenharia
certamente a obra de Francis Bacon).
Não há sangue, mas tinta vermelha em substituição.
(E não será por acaso que a cor encarnada
será precisamente uma constante
do universo singular de Lynch.)
De resto, se há algo que sobressai destas curtas
é precisamente a sua singularidade: são demandas,
mas são também indícios do que haveria de vir;
e, se um realizador é grande, é-o sobretudo
porque soube impor uma visão singular do mundo.
Vincent (1982)
Vincent, de Tim Burton, não é uma simples tentativa ou ensaio, como a maioria das primeiras curtas dos mestres do cinema que projectarei aqui; é já um filme de animação plenamente conseguido. Tim Burton também tem as suas experiências amadoras (que a seu tempo passarei), mas convém alternar o amadorismo dos inícios dos mestres com os seus pequenos triunfos, e Vincente é sem dúvida um destes.
O poema original aqui.
Quest (1996)
A água do rio de Heraclito percorre a Terra.
Gelada, num lago do ártico canadiano ou sob a forma sólida de iglô,
extensão infinita, onde se mede o velho de Hemingway,
alterosa contra as rochas das ilhas irlandesas de Aran,
branda e pacificada na sabedoria rangente dos moinhos de Kurosawa,
quase estagnada na represa do mosteiro de de Wit,
a água polimórfica de Heraclito,
o elemento primordial de Thales,
cabe, enfim, todo numa gota,
a gota de Tyron Montgomery.
A merecer um ensaio à altura,
este filho dos pré-socráticos e de Empédocles...
O monge e o peixe (1994)
O curso de água atinge agora a represa de um aqueduto de mosteiro.
Do espelho de água irrompe um peixe que obsidia um monge.
Vive para apanhar o peixe, o monge - até ao momento em que,
tal como o velho de O velho e o mar, compreende que o peixe
partilha consigo uma fraternidade não capturável.
E então entrega-se, torna-se peixe, e vai...
Poesia pura, este filme de Michael Dudok de Wit,
belo e minimal como um haiku, acompanhado
magnificamente pela Folia de Corelli.
O velho e o mar (1999) - parte 2
«Se há uma história, é a do homem no seu contraponto com a natureza», dizia Robert Flaherty. E Jorge de Sena escreveu, a propósito de O velho e o mar , no Prefácio da tradução que fez da obra de Hemingway: «Poucas vezes, no nosso tempo, terá sido concebida e realizada uma obra tão pura, em que a natureza e a humanidade sejam, frente a frente, tão verdade.»
Quanto a mim, revendo agora este pequeno filme, não posso deixar de recordar vividamente aquela manhã numa das salas de espera do Hospital de Coimbra: enquanto lia O velho e o mar, a minha avó paterna, ali ao lado, esperava a vez para mais uma sessão de quimioterapia que a haveria de levar à morte em breve.
Seja Nanook, seja Santiago, seja a avó Teresa, as forças naturais levam a melhor. Mas nada pode negar esta verdade de termos sido vivos diante de algo tão poderoso - nem a morte.
O velho e o mar (1999) - parte 1
Nove anos depois da adaptação de Jud Taylor, com Anthony Quinn no papel de velho, esta adaptação de Aleksandr Petrov ao filme animado do clássico de Ernest Hemingway valeu-lhe prémios, tal como valera ao autor de Por quem os sinos dobram o Prémio Pulitzer em 1953 e contribuira grandemente para a atribuição do Prémio Nobel em 1954.
É porque estamos diante de um grande documento estético. Mas é também porque estamos diante de «um breviário nobilíssimo da dignidade humana» (Jorge de Sena) transposto para animação. Jorge de Sena, que traduziu o livro, chama-lhe mesmo «poema em prosa» e eu concordo. E não será por acaso que, enquanto vejo as longas metragens como siamesas do romance ou da sinfonia, as boas curtas sempre se me afiguraram como poemas visuais.
Ainda assim, será bom que pela mão da imagem se volte à palavra e se torne a ler:
Era um velho que pescava sozinho num esquife da Corrente do Golfo, e saíra havia já oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe...
Uma das razões é porque a palavra de Hemingway mostra o que o pequeno filme de Petrov não mostra: a espessura do tempo de que é composta a espera e a persistência do velho...
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