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Las Hurdes - Terra sem pão: 3/3
O género cinematográfico do documentário
dificilmente se pode apresentar como entretenimento.
Ele pode ser mais ou menos perfeito, tecnicamente falando,
mais ou menos «atractivo», esteticamente falando,
mas o seu objecto, tende a apresentar-se
como «objecto de pensamento». E porque o objecto é
frequentemente «o social», o documentário acaba por tomar
uma posição, acaba por ser político.
A doença, a fome, a loucura e a morte
num documentário - e neste em especial -
não são nunca representações
(de facto, estas pessoas não seriam nunca representáveis),
não são algo que se possa fruir como espectáculo;
daí o carácter profético de documentários como este:
de um lado a denúncia política,
do outro o anúncio de uma realidade outra,
exigida pelo imperativo ético.
Las Hurdes - Terra sem pão: 2/3
A saga miserável da sobrevivência dos hurdianos,
mais radical que a saga dos esquimós ou dos pescadores
de Flaherty, parece, hoje, irreal,
a um habitante do «mundo moderno»;
e, no entanto, viver no osso, com escassez de alimento,
sem higiene e saúde é ainda a realidade quotidiana
de uma grande parte de um mundo
que não sabe (nem saberá?) o que é a «modernidade»,
a modernidad assassina e vampira,
a modernidade do «império da vergonha».
Las Hurdes - Terra sem pão (1932): 1/3
Depois dos seus experimentos surrealistas
(Un chien andalou e L'âge d'or),
Buñuel filmará este documentário cru e quase tão surrealista
quanto os seus antecedentes.
Curioso o fascínio que as realidades marginais
exercem sobre os jovens cineastas
e que se aproximem delas através do documentário...
É como se procurassem, nessas realidades extremas,
a parte escondida da realidade quotidiana que conhecem,
a tranfiguração do tédio em acontecimento extraordinário,
ou, por outras palavras,
como se procurassem a realidade da realidade,
o mistério fulgurante e terrível que se oculta
por debaixo da superfície das imagens familiares
e da estabilidade burguesa dos dias.
O Homem de Aran (1934) - Extracto 2
Há uma diferença substancial entre a ficção deste documentário e a ficção de filmes como Tempestade - The perfect storm, de Wolfgang Petersen, ou O Tubarão , de Spielberg - talvez a diferença que faz do filme de Flaherty um documentário e destes filmes de suspense ou terror. O documentário é o género mais próximo do pensamento filosófico, uma vez que pretende constituir-se como um ponto de vista acerca da realidade observada. A montagem nunca é inocente e revela sempre um pensamento sobre (seja pelas legendas, seja pela voz-off, seja pela eleição das imagens e das sequências).
O documentário revela também que toda a verdade-testemunho é ficcional, porque preparada antes de apresentada. Por mais próxima que seja a adequação ao sentimento, o que sentiam os elementos da família de pescadores de Aran era necessariamente é outra coisa daquela que nos parece...
O homem de Aran (1934) - extracto 1
O confronto entre homem e natureza quase sempre acrescentou humanidade ao homem. Assim foi, enquanto manteve o elo, enquanto, resistindo, vivia dela, natureza, e não a agredia. Flaherty dá-nos um fresco intenso dessa realidade nesta sua obra-prima.
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