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Las Hurdes - Terra sem pão: 3/3

Luis Buñuel (1900-1983)

O género cinematográfico do documentário
dificilmente se pode apresentar como entretenimento.
Ele pode ser mais ou menos perfeito, tecnicamente falando,
mais ou menos «atractivo», esteticamente falando,
mas o seu objecto, tende a apresentar-se
como «objecto de pensamento». E porque o objecto é
frequentemente «o social», o documentário acaba por tomar
uma posição, acaba por ser político.

A doença, a fome, a loucura e a morte
num documentário - e neste em especial -
não são nunca representações
(de facto, estas pessoas não seriam nunca representáveis),
não são algo que se possa fruir como espectáculo;
daí o carácter profético de documentários como este:
de um lado a denúncia política,
do outro o anúncio de uma realidade outra,
exigida pelo imperativo ético.

Las Hurdes - Terra sem pão: 2/3

Luis Buñuel (1900-1983)

A saga miserável da sobrevivência dos hurdianos,
mais radical que a saga dos esquimós ou dos pescadores
de Flaherty, parece, hoje, irreal,
a um habitante do «mundo moderno»;
e, no entanto, viver no osso, com escassez de alimento,
sem higiene e saúde é ainda a realidade quotidiana
de uma grande parte de um mundo
que não sabe (nem saberá?) o que é a «modernidade»,
a modernidad assassina e vampira,
a modernidade do «império da vergonha».

Las Hurdes - Terra sem pão (1932): 1/3

Luis Buñuel (1900-1983)

Depois dos seus experimentos surrealistas
(Un chien andalou e L'âge d'or),
Buñuel filmará este documentário cru e quase tão surrealista
quanto os seus antecedentes.

Curioso o fascínio que as realidades marginais
exercem sobre os jovens cineastas
e que se aproximem delas através do documentário...

É como se procurassem, nessas realidades extremas,
a parte escondida da realidade quotidiana que conhecem,
a tranfiguração do tédio em acontecimento extraordinário,
ou, por outras palavras,
como se procurassem a realidade da realidade,
o mistério fulgurante e terrível que se oculta
por debaixo da superfície das imagens familiares
e da estabilidade burguesa dos dias.

Day of the fight (1949) - Parte 2

Stanley Kubrick (1928-1999)

O início deste documetário do jovem Kubrick é exemplar da sua atitude ética perante a violência.
Ele não procura um «efeito violento»,
como um Lynch, nas suas primeiras experiências:
ele quer já pensar as razões do fascínio da violência.
No caso concreto do boxe, são enunciadas pela voz-off palavras próprias de uma análise científico-antropológica,
enquanto é apresentada uma sequência de antologia
da queda de pugilistas no ringue:
«violência física», «contacto corpo a corpo»,
«visceral», «primitivo», «animal contra animal», «sangue».
Esta distância permitida pelo documentário
será posteriormente desenvolvida de modo radical
sob a forma de ficção em Laranja mecânica -
mas aí o estudo não incidirá apenas
sobre as origens biológicas da violência,
mas também sobre a responsabilidade
pessoal, social e política da mesma...

Day of the fight (1949) - Parte 1

Stanley Kubrick (1928-1999)

O cinema faz-se de alusões e memória.
Se a cada novo realizador que surge,
corresponde, no sentido ôntico,
um novo nascimento do cinema,
não deixa de ser certo que esse nascimento
nunca é virgem: uma imagem convoca quase sempre
outra, mais antiga, uma imagem-modelo,
ou imagem-referência - uma imagem-arquétipo.
Isto é verdade tanto na relação do realizador
com a História do Cinema,
como na relação com a sua própria obra.

Seguindo o sentido inverso ao que acaba de ser dito:
se a auto-mutilação de The big shave, de Scorsese,
prefigura a rapagem do cabelo de Travis Blickle, em Taxi Driver,
antes do massacre, ou a auto-destruição de Jake LaMotta,
em O touro enraivecido, a imagem do anti-herói pugilista
no cinema, é muito anterior. Não sendo necessário
recuar a Chaplin, Scorsese, um profundo conhecedor
da História do Cinema, terá certamente passado
por Killer's kiss, de Kubrick. Mas, para chegar aí,
teve Kubrick de passar por este ensaio-quase-documentário,
sobre um dia de Walter Cartier.

Claro que melhor ou pior o Balboa de Stallone
e o Belarmino de Fernando Lopes também
fazem parte desta linhagem dos filmes sobre o boxer,
uma pequena categoria por si só do cinema.