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Fantasia Submarina (1939)
Que tem Rossellini que ver com Nemo, o peixe-palhaço?
Muito provavelmente nada. E, contudo, se pensarmos
em histórias de peixes no cinema,
muito antes de À procura de Nemo,
teremos de contar com esta Fantasia submarina,
história com protagonista e herói ictíco
sobre os perigos do mar e sobre o amor.
Curioso objecto fílmico, este.
Seríamos tentados ver nele um documentário
sobre a vida submarina, daqueles documentários animistas,
de fotografia esplêndida, sempre excessivamente antropocêntricos,
que projectam no animal observado motivações humanas.
Naturalmente não é o caso:
Rossellini tem a honestidade
de chamar à curta-metragem «fantasia».
Fantasia é, com efeito, o que se faz quando,
mesmo socorrendo-se da ciência, o documentarista «vê»
naquilo que observa sem compreender uma história.
Na verdade, o documentarista tece um enredo
a partir das imagens disponíveis, faz montagem.
A narração é um enleio, um fio que dirigem a atenção
do espectador, de modo a dar um sentido às imagens.
É a função da voz-off neste filme,
como o é nos citados documentários.
Aqui, Rossellini vai porém mais longe:
o que acontece não só está ligado pela narração e montagem,
como são fios reais que fazem acontecer o que acontece,
e os peixes, «actores» obrigados a seguir o guião,
dirigidos pelo realizador ou assistentes
debruçados sobre o aquário que simula as profundezas marítimas.
Mas não é o cinema sempre isso: uma reconfiguração do real,
uma reconstrução, ficção, fantasia?
O Homem de Aran (1934) - Extracto 2
Há uma diferença substancial entre a ficção deste documentário e a ficção de filmes como Tempestade - The perfect storm, de Wolfgang Petersen, ou O Tubarão , de Spielberg - talvez a diferença que faz do filme de Flaherty um documentário e destes filmes de suspense ou terror. O documentário é o género mais próximo do pensamento filosófico, uma vez que pretende constituir-se como um ponto de vista acerca da realidade observada. A montagem nunca é inocente e revela sempre um pensamento sobre (seja pelas legendas, seja pela voz-off, seja pela eleição das imagens e das sequências).
O documentário revela também que toda a verdade-testemunho é ficcional, porque preparada antes de apresentada. Por mais próxima que seja a adequação ao sentimento, o que sentiam os elementos da família de pescadores de Aran era necessariamente é outra coisa daquela que nos parece...
O homem de Aran (1934) - extracto 1
O confronto entre homem e natureza quase sempre acrescentou humanidade ao homem. Assim foi, enquanto manteve o elo, enquanto, resistindo, vivia dela, natureza, e não a agredia. Flaherty dá-nos um fresco intenso dessa realidade nesta sua obra-prima.
Nanook o Esquimó (1922) - extracto 2
"A ideia do documentário, em suma, exige apenas que as questões de nosso tempo sejam trazidas para a tela de uma qualquer maneira que estimule nossa imaginação e torne a observação destas questões um pouco mais ricas que até então. De um certo ponto de vista, confunde-se com o jornalismo; de outro, pode elevar-se à poesia ou ao drama. E de outro ainda, a sua qualidade estética resulta simplesmente da lucidez da exposição."
Robert Flaherty (1924)
Fonte da citação
Nanook o Esquimó (1922) - extracto 1
Flaherty foi um dos pioneiros do documentarismo, se bem que já alguns dos primeiros filmes dos irmãos Lumière são «documentais», no sentido em que são certificados de eventos e realidades.
Mas todo o documentário encerra, enquanto extracção, selecção e montagem, um carácter ficcional. Um bom texto para o pensar, aqui.
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